
Lucas Machado, colaboração para a CNN Brasil
O uso de inteligência artificial generativa já faz parte da rotina de estudo de boa parte dos estudantes brasileiros, seja para tirar dúvidas, resumir textos ou revisar redações.
Mas a facilidade de obter uma resposta pronta em segundos também trouxe um efeito colateral: o hábito de aceitar o que a máquina diz sem checar se está certo, e de entregar dados pessoais a ferramentas sem saber para onde essa informação vai. É o que observa Fernando Manfrin, advogado especialista em compliance e proteção de dados, que analisa os riscos e os benefícios do uso de IA como apoio pedagógico.
Personalização é o principal ganho, mas tem limite
Para o especialista, o maior benefício da inteligência artificial no estudo é a velocidade somada à personalização: a ferramenta consegue explicar o mesmo assunto de diferentes maneiras até que o aluno entenda, respeitando o ritmo de cada um.
"A IA é como um professor 24 horas, capaz de resumir textos densos, criar exercícios sob medida e simular provas. Diferentemente de uma sala de aula, no chat da inteligência artificial, o aluno pode se sentir mais confortável em perguntar quantas vezes for preciso, sem medo de julgamento", pontua.
Os erros mais comuns de quem estuda com IA
O primeiro erro, segundo Manfrin, é tratar a resposta da IA como verdade absoluta, já que uma resposta bem escrita não é sinônimo de resposta correta, o que inclui as chamadas alucinações, erros que a ferramenta apresenta com total confiança.
O segundo problema é pular a etapa de pensar. "As pessoas passam a 'terceirizar o raciocínio', sem ao menos tentar responder à questão sozinhas", afirma.
Já o terceiro erro, mais silencioso, é inserir dados pessoais na ferramenta sem perceber: nome, foto ou informações de colegas. "Você não sabe onde aquilo vai parar", resume o especialista.
Como verificar se uma resposta está certa e atualizada
Diante disso, o especialista recomenda: "Desconfiar é sempre a melhor solução. O ideal é pedir a fonte da informação, verificar se ela é verídica e buscar pontos divergentes, o que também ajuda a estimular o raciocínio", orienta o especialista.
Quando a IA cita um dado, um número ou uma lei, o caminho é buscar o texto original — inclusive atentando-se à data, já que muitos modelos de linguagem têm um corte de conhecimento e tratam informações antigas como se fossem atuais.
Quando a IA ajuda e quando ela não deve substituir a fonte
Segundo o advogado, a inteligência artificial funciona bem para "destravar": explicar conceitos, dar exemplos, organizar ideias e levantar hipóteses. O problema é quando ela substitui a fonte primária. "Se o tema é uma lei, leia a lei; se é um artigo científico, é preciso ir ao artigo, e se é um fato atual, a checagem deve ser feita em um veículo confiável". Ele resume que a ferramenta "é um ótimo ponto de partida, mas não deve ser o ponto final".
Prompts melhores para respostas mais precisas
Outro ponto levantado pelo especialista é a forma como o estudante formula suas perguntas. "Um bom prompt é uma conversa, não um comando. A IA deve ser tratada como uma criança, que precisa de explicações pacientes e do máximo de contexto possível", explica.
Perguntar apenas o que é um conceito gera uma resposta genérica; explicar a série escolar, pedir uma analogia do cotidiano e solicitar perguntas de verificação ao final produz aprendizado de fato. O advogado também recomenda pedir exemplos, pedir que a própria IA questione o estudante em vez de apenas responder, e não aceitar a primeira resposta como a final.
Sobre o uso excessivo, Fernando afirma que a pesquisa já mostra prejuízo à memória e ao pensamento crítico quando o raciocínio é delegado para fora com frequência, em um fenômeno conhecido como descarga cognitiva.
"Quando você delega o pensamento para fora, o músculo do raciocínio atrofia. O problema não é a ferramenta, mas sim o jeito de usar: quando entra como método, com o estudante pensando junto, é uma aliada; quando é usada de forma mecânica, apenas para responder ou criar algo pronto, o senso crítico e a autoria se perdem pela falta de estímulo".
Para lidar com esse cenário, o especialista defende regras claras entre escola, família e estudante. Segundo ele, hoje é praticamente impossível proibir o uso da inteligência artificial, e os tutores não controlam o que não conhecem. "Por isso, pais e professores também precisam aprender sobre a ferramenta", diz.
Ao estudante cabe uma regra simples: a IA pode ajudar a desenvolver a tarefa, mas não pode pensar por ele. Segundo Fernando, a ética nesse contexto não é decorar um código de conduta, e sim ser transparente sobre o uso, porque "esconder é o que transforma ajuda em fraude".
Um método que o próprio especialista utiliza é tentar explicar a resposta com outras palavras: "se você consegue explicar a resposta com as suas palavras, você entendeu; caso contrário, o estudante apenas copiou, e não vai conseguir usar isso nem em prova, nem no seu dia a dia".
O especialista também alerta para os cuidados na hora de usar IA em trabalhos e redações: checar tudo, já que a ferramenta pode inventar fontes e citações inexistentes; evitar expor dados pessoais sem conhecer a política de privacidade do serviço; e garantir que o conteúdo final represente o próprio raciocínio do estudante, não apenas um resumo do que a IA já sabe.
Para o especialista, o estudo deixará de ser sinônimo de acumular informação e passará a valorizar quem sabe fazer a pergunta certa e explicar a melhor resposta. As habilidades que não saem de moda, segundo ele, são justamente as que a máquina não faz sozinha: pensamento crítico para separar o que é certo do que só parece certo, capacidade de checar fontes, ética no uso da ferramenta e criatividade para conectar o que ela não conecta. "A IA não substitui quem pensa, ela expõe quem parou de pensar", finaliza.
Mín. 22° Máx. 38°