
Iranianos voltaram às ruas nesta segunda-feira (12), marcando a terceira semana consecutiva de protestos contra o governo do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Com mais de 500 mortos, as manifestações já superam em escala as registradas em 2009 — quando a eleição presidencial foi questionada por opositores — e as de 2022, após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade.
A atual onda de protestos coloca o país no momento mais crítico desde a Revolução Iraniana de 1979. Mas o que explica a explosão social?
A repressão violenta atraiu atenção internacional. A União Europeia avalia a imposição de novas sanções, enquanto os Estados Unidos passaram a adotar um tom mais duro, levantando a possibilidade de intervenção militar caso a repressão continue e o shutdown da internet — que já dura mais de 48h — permaneça.
Segundo a professora Muna Omran, especialista em Oriente Médio, apesar da escala massiva dos protestos, não há fissuras na liderança clerical xiita, nem nas forças militares ou de segurança, e os manifestantes tampouco contam com uma liderança centralizada. Além disso, a própria arquitetura do Estado iraniano dificulta qualquer mudança abrupta.
"A estrutura de poder do Irã é muito peculiar. Não é como, por exemplo, a Venezuela que você prende o presidente e coloca outro no lugar. Quando os aiatolás chegam ao poder, eles fatiam o poder de uma tal maneira, organizam a estrutura do Estado iraniano de uma tal forma que se cair o clero hoje, quem assume são os militares de dentro do governo.", explica
"E aí você sai de uma ditadura para outra", comenta a professora, que lembra que o Irã teve apenas um breve período democrático durante o governo do primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, entre 1952 e 1953.
Mossadegh foi deposto após interferência direta dos Estados Unidos, que financiaram mobilizações populares depois que ele nacionalizou os poços de petróleo iranianos, contrariando interesses econômicos do Ocidente. A operação, conduzida pela CIA em conjunto com o serviço secreto britânico MI-6, levou à restauração do xá Mohammad Reza Pahlavi, que permaneceu no poder até a Revolução de 1979
Hoje, o filho do xá, Reza Pahlavi, vive exilado nos Estados Unidos e é citado como uma possível alternativa ao regime islâmico. Para Muna, no entanto, essa hipótese não se sustenta.
"Ele não tem nenhuma credibilidade dentro do Irã. E isso é dito por pessoas ligadas ao governo e pessoas que não são ligadas ao governo", conta.
Nesta segunda (12), um cortejo em Teerã para agentes de segurança e civis mortos nas manifestações virou uma demonstração de apoio popular ao governo, atraindo milhares de apoiadores. Com as imagens do ato fúnebre sendo compartilhadas pela mídia estatal iraniana.
Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos voltou a adotar um discurso agressivo na política externa. Após a prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro e declarações sobre uma possível intervenção na Groenlândia, Trump também ameaçou interferir militarmente no Irã caso o regime continue reprimindo os protestos com violência.
Para a especialista, no entanto, uma ação militar contra o Irã seria muito mais complexa. Isso porque, a presença de Rússia e China no tabuleiro global limita qualquer escalada maior. Moscou, menos envolvida com a guerra na Ucrânia, e Pequim, interessada tanto no petróleo iraniano quanto em Taiwan, funcionam como fatores de contenção.
"O Trump é imprevisível, porém, o Irã não é a Venezuela. Por quê? Primeiro porque tem uma estrutura de poder consistente. Segundo, a posição geopolítica do Irã não favorece o Trump, porque está mais perto da China e da Rússia do que a Venezuela. O Putin tem uma força bélica, tem arma nuclear, pode querer apoiar o Irã, assim como pode se silenciar, a gente nunca sabe. E o Xi Jinping, da China, tem força econômica, inclusive são eles que mantêm o Irã, né? A economia chinesa que compra barril de petróleo do Irã."
Muna destaca ainda que, mesmo em caso de ataque, o padrão recente da política externa americana sugere um conflito controlado e de curta duração.
"Se o Trump efetivamente atacar o Irã, primeiro que, se atacar, ele vai avisar. Exatamente como foi na guerra dos 12 dias. Ele ataca, aí o Irã revida, avisando que vai atacar uma base aérea dos EUA no Oriente Médio. O Irã ameaça fechar o Estreito de Ormuz, principal rota de petróleo, e tudo volta como era antes."
Mín. 22° Máx. 35°