
Em documento oficial enviado à Câmara dos Deputados no último dia 1º, o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) reconhece explicitamente o temor de que a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos possa abrir caminho para ações extraterritoriais americanas, inclusive de natureza militar, em território brasileiro.
Assinado pelo chanceler Mauro Vieira, o texto responde a um Pedido de Informação da Câmara e representa a manifestação mais direta do governo Lula sobre os riscos da medida unilateral anunciada por Washington.
Segundo o documento, a designação das facções como terroristas “poderia ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais sobre instituições brasileiras, em particular no âmbito financeiro, migratório e penal”.
Vieira vai além e afirma de forma clara: “Há, ademais, o risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional”.
O chanceler destaca que a decisão americana é um “ato unilateral” e que o Brasil tem externado oposição a ela, mas alerta para possíveis impactos graves na soberania e na economia nacional. A classificação, que entrou em vigor em junho, permite que autoridades dos EUA apliquem medidas com “amplo grau de discricionariedade”, atingindo até pessoas ou empresas sem ligação direta com as facções.
A designação das facções como terroristas pelos EUA não afeta apenas o Brasil, mas pode gerar repercussões diretas no Mercosul, bloco econômico que o país integra ao lado de Argentina, Paraguai e Uruguai (com Bolívia em processo de adesão).
Especialistas e fontes diplomáticas consultadas apontam que a medida cria um precedente perigoso para a integração regional.
Se os EUA passarem a tratar o PCC e o CV como organizações terroristas globais, instituições financeiras e empresas do Mercosul poderiam enfrentar sanções secundárias americanas caso mantenham relações comerciais ou financeiras com entidades brasileiras suspeitas de ligação indireta com as facções. Isso inclui bancos, cooperativas de crédito e até operações de comércio exterior dentro do bloco.
No âmbito do Mercosul, o risco é de fragmentação econômica. Países como Argentina e Uruguai, que já mantêm boas relações com Washington, poderiam ser pressionados a adotar medidas alinhadas à política antiterrorismo dos EUA, o que enfraqueceria a harmonização de normas comerciais e financeiras do bloco. Uma eventual aplicação extraterritorial de sanções poderia, por exemplo, complicar o funcionamento do sistema de pagamentos regional ou afetar acordos de livre comércio em negociação com outros blocos.
Além disso, o alerta do Itamaraty sobre possível uso da força militar levanta preocupações com a estabilidade geopolítica da América do Sul. Uma ação unilateral americana em solo brasileiro seria vista como violação da soberania não só pelo Brasil, mas por todo o Mercosul, potencialmente reacendendo debates sobre intervencionismo externo na região.
Diplomatas brasileiros consultados pela coluna temem que isso complique negociações do bloco com os EUA e a União Europeia, além de fortalecer narrativas antiamericanas em governos de esquerda na região.
O chanceler Mauro Vieira, em conversas reservadas, tem enfatizado a necessidade de preservar a autonomia do Mercosul frente a pressões externas, especialmente em ano eleitoral no Brasil. A classificação das facções é vista como um teste à coesão do bloco e à capacidade do Brasil de liderar uma resposta coletiva.
A preocupação do Itamaraty surge após o Departamento de Estado dos EUA, sob o secretário Marco Rubio, incluir PCC e CV na lista de organizações terroristas. O governo brasileiro vê a medida como contraproducente e lesiva, argumentando que as facções são organizações criminosas motivadas por lucro, e não grupos terroristas no sentido ideológico definido pela legislação nacional.
Além da possibilidade militar, há temores de sanções financeiras, restrições migratórias e interferências que poderiam afetar a estabilidade econômica e a soberania do país.
O Planalto e o Itamaraty têm dialogado internamente e com os EUA para mitigar os efeitos, mas até o momento evitam confrontos públicos diretos.
Especialistas consultados avaliam que, embora uma incursão militar em larga escala seja improvável, a classificação abre precedentes jurídicos perigosos para operações seletivas ou pressões externas.
Mín. 16° Máx. 34°